quinta-feira, 10 de junho de 2021

O sentido da Páscoa no atual contexto pandêmico

 Pe. Isaias Mendes Barbosa, CSsR1 

 

liturgia (Leiturgiada Igrejapovo de Deus, é uma ação do povo que traz consigo os feitos de Deus em nosso favor, um Deus que entrou na nossa história e assumiu as nossas dores até hoje. Tudo isso é celebrado na liturgia como memorial” (fazei isso) da intervenção de Deus para nos salvar. Assim, nos direcionamos para a Páscoa (pessah) do Senhor. Celebrar a scoa do nazareno requer de nós que coloquemos no coração de Deus o que passamos no ano de 2020 e o que estamos vivendo no ano de 2021.  

 

Tivemos a pandemia que ceifou inúmeras vidas, que desfez famílias e revelou as nossas feridas sociais: a divisão e intriga familiar, a nossa fragilidade, a violência contra os povos indígenas, negros, mulheres e lgbt+, a negação da ciência, o fundamentalismo religioso e a violência contra o nosso organismo vivo, a mãe terra (CFE, n.23-94). Tudo isso precisa estar ofertado no altar do Senhor, pois com Ele sofremos, com Ele padecemos, mas também será na Páscoa (Passagem) com Ele que ressuscitaremos.  

 

Aproximemos nossas dores nas dores de Jesus para que possamos ressuscitar para uma nova vida, com desafios, mas com esperança. Não esqueçamos que na Páscoa Jesus está passando em nosso meio (Mt 28,20). Agora Ele não está mais em um corpo pessoal encarnado (encarnação do Filho), mas muito mais que isso. Ele está no meio de nós pela força de Deus (o Espírito Santo), Ele está ressuscitando dentro de nós, porque os efeitos da ressurreição divina ainda não acabaram. Por isso que Ele está ressuscitando em nós até tornar completa a sua obra. Ele está ressuscitando no pobre que fora abandonado, na mulher que sofreu violência, agressão, naquela mulher que teve que trabalhar todo dia em casa para cuidar de seus filhos, de seu marido e até de outras pessoas com covid-19, dentre outras enfermidadesNas Páscoa, Jesus está ressuscitando no trabalhador que luta para ter o pão de cada dia, na juventude que teve que ralar para fazer o curso da faculdade online, nos enfermeiros e médicos que se esgotaram de tanto trabalhar para recuperar a saúde e vida dos pacientes 

 

Jesus está ressuscitando com as pessoas do trabalho informal, com o povo do sinal, com a mulher que perdeu seu filho, seu marido e um grande amor. Jesus está ressuscitado em nós. Ele foi solidário conosco e estava conosco em nossas dores, Jesus sofreu conosco as nossas cruzes esses últimos tempos. Como dizia Santo Afonso: Deus tanto amou-nos que não só nos fez o bem, mas foi solidário conosco, sofrendo ao nosso lado (Meditação de Santo Afonso). Queama se compadece da dor do outro, quem ama sofre com o outro e pelo outro. Assim Jesus sofreu por nós e conosco esses tempos.   

 

Mas agora Ele está ressuscitando em cada um de nós, Ele quer dizer pra nós como para os discípulos de Emaús que a morte não deu a última palavra, mas a vida eterna, é a Ressurreição a última palavra: então vamos ressuscitar levantando a cabeça e enfrentando os desafios pela frente, vamos ressuscitar pelo cuidado e amor de uns pelos outros, vamos ressuscitar pela luta da vida, vamos ressuscitar com a fé, com a esperança e com a caridade, com a solidariedade, com a união, com o respeito, com a insistência pela vida. Se Jesus esteve conosco nas nossas dores e alegrias, vamos estar agora na scoa da Ressurreição de Jesus 

 

Em Deus e por causa de Deus nós continuamos, com Jesus ressuscitando (agindo até nos transformar em outro cristo) vamos ser: luz, esperança, luta, coragem, resistência, compaixão, empatia e convivência, cuidado, compromisso de amor com os mais vulneráveis.  Vamos quebrar as amarras da maldade, desamarrar as correias doque estão presos, erguer os que estão curvados, partilhar o pão com o faminto, acolher os pobres e mendigos, cobrir os nus, não desprezar quem é da nossa própria família e da nossa própria carne, não desprezar os pobres. Vamos com Jesus promover a paz que luta pela paz, a paz sem fronteira, sem endereço fixo, sem cultura limitada, sem raça determinada, sem gêneroa paz que é Shalom: perdão, retorno, abraço, misericórdia, justiça. Feliz Pascoa!!! 

domingo, 15 de março de 2020

São Clemente e a pastoral de cuidado ao estrangeiro



       No bicentenário da morte do Missionário Redentorista São Clemente Maria Hofbauer (1751-1820), vamos falar de sua pessoa e do trabalho pastoral desenvolvido por ele junto aos migrantes. Ao tratar deste santo nos situamos na transição do século XVIII para o XIX: tempo do Iluminismo, do racionalismo, do desprezo pelas artes liberais e literatura. O tempo de atrito entre Iluminismo e Romantismo. O imperador José II queria o monopólio das Igrejas em seu território, o pós-jansenismo ou josefinismo planejava uma catolicidade manobrada pelo Estado austríaco. Este estava integrado à Polônia. Nesse período o fluxo migratório se dava entre franceses, alemães, poloneses, russos  e etc.
Clemente fez parte desse universo e até chegou a assumir uma identidade missionária peregrina em 1775 quando se tornou “eremita” em Mühlfrauen e Tivoli, perto de Roma[1]. “Clemente Hofbauer foi toda a sua vida um incrível andarilho. Viajava o mais das vezes a pé. O peregrinar também lhe estava no sangue. Sendo ainda aprendiz de padeiro, tinha uns 18 anos, fez a primeira grande peregrinação a Roma”[2]. Esteve na Itália durante meio ano e depois se dirigiu para sua terra, a fim de ser peregrino em sua pátria. Em dois espaços se situam a ação pastoral de Clemente, relacionada com o migrante: Varsóvia (de 1787 a 1808) e Viena (de 1808 a 1820).
No primeiro caso, em consequência das três divisões da Polônia (1772/1793/1795), Varsóvia foi ocupada pelos russos, pelos prussianos e austríacos no reinado de Estanislau II. Mortes, violência e atrocidades fizeram parte deste contexto. Havia em Varsóvia uma instituição que alojava migrantes pobres, doentes, crianças órfãs e que fazia parte da confraria de São Bento. Clemente assumiu esta confraria. Para dar assistência aos abandonados e migrantes criou a) a escola para crianças pobres, b) a escola de humanidades, c) a escola industrial ou de trabalhos manuais e d) o orfanato e acompanhamento (HEINMANN, 1988, p.63-69). A ação pastoral ética do amparo, da misericórdia, do resgate da pessoa e da dignidade humana e do acompanhamento humanista configurou uma das principais preocupações de São Clemente.
Viena contrasta com as mudanças que aconteceram na Europa: a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas. “Nesse tempo, morava em Viena cerca de 250 mil pessoas de diversas nações e, dessas, 50 mil dentro dos muros da cidade. A situação social se configurava cada vez mais crítica” (SCHERMANN, 2007, p.117). A responsabilidade pastoral ética de São Clemente estava na instrução do povo, o cuidado com o pobre e a saúde pública. Em maio de 1890, Napoleão sitia a cidade. O imperador francês selou uma paz humilhante com a Áustria, com o custo de dezenas de milhares de feridos nos hospitais. A responsabilidade para com os abandonados fizera Clemente passar significativa parte do seu tempo cuidando deles, dentre os quais estavam os emigrantes regionais e os de fora. Aqui está retratada a compaixão samaritana para com os migrantes além dos nativos. A benignidade pastoral fez Clemente praticar o cuidado espiritual das almas por meio da confissão, penitência,pregação,conselho, benevolência etc. Assim se dei o testemunho pastoral, sacramental e social deste zeloso Redentorista. Que São Clemente nos inspire frente as realidades da migração na contemporaneidade.

Texto extraído do segundo capítulo da minha monografia "Traços éticos da Migração: das Sagradas Escrituras à Contemporaneidade". Tal monografia foi entregue no último semestre do curso de Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, no ano de 2019.


[1] SCHERMANN, Hans (Org.). São Clemente Maria Hofbauer: perfil de um Santo. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2007, p.19.
[2] HEINZMANN, Josef. Vida de São Clemente Hofbauer: anunciando novamente o Evangelho. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1988, p.23.